Quando se fala em jogos de sucesso, a maioria das referências citadas vem de grandes estúdios estrangeiros. Murilo Moura Alencar, Tech, People & Game Strategist e cofundador do estúdio de games do filho, pondera que o Brasil já tem exemplos próprios capazes de ensinar muito a quem está começando. Alguns títulos nacionais conquistaram público e crítica fora do país sem orçamentos milionários.
O que esses jogos têm em comum não é o tamanho da equipe nem o gênero, mas escolhas claras de design e identidade. A seguir, três deles e as lições que cada um oferece a quem desenvolve jogos.
Dandara: uma mecânica que define o jogo
Lançado em 2018 pelo estúdio mineiro Long Hat House, Dandara chamou atenção por uma decisão ousada: a personagem não anda nem pula como em jogos de plataforma tradicionais. Ela se desloca saltando entre superfícies, inclusive paredes e tetos, o que transforma completamente a forma de explorar o mundo.
A lição está na coragem de construir o jogo inteiro em torno de uma mecânica distinta. Em vez de competir com dezenas de títulos semelhantes, o estúdio criou uma experiência reconhecível desde os primeiros segundos. O nome e a inspiração, ligados a Dandara dos Palmares, figura histórica da resistência negra no Brasil, reforçam uma identidade que nenhum concorrente estrangeiro teria.
Horizon Chase: homenagem com olhar atual
O estúdio gaúcho Aquiris lançou Horizon Chase em 2015 como uma homenagem declarada aos jogos de corrida dos anos 1990, como Top Gear. A trilha sonora contou com Barry Leitch, compositor associado justamente a esse clássico, o que aproximou o jogo da memória afetiva de toda uma geração.
Murilo Alencar ressalta que a força do projeto não estava apenas na nostalgia. O jogo atualizou a fórmula com visual colorido e moderno, controles ajustados para celulares e uma progressão pensada para sessões curtas. A lição é que inspiração em clássicos funciona melhor quando vem acompanhada de escolhas que conversam com o jogador de hoje.
Arida: a cultura local como diferencial
Desenvolvido pelo estúdio baiano Aoca Game Lab, Arida: Backland’s Awakening se passa no sertão brasileiro do fim do século 19, no contexto que antecede a Guerra de Canudos. A sobrevivência num ambiente seco, a busca por água e a paisagem da caatinga estão no centro da experiência.
O jogo mostra que histórias e cenários brasileiros podem ser um diferencial competitivo, e não uma limitação. Na visão de Murilo Moura Alencar, temas que o público internacional raramente vê nos games despertam curiosidade justamente por serem novos, desde que tratados com cuidado e pesquisa.
O que os três têm em comum?
Nenhum desses jogos tentou imitar grandes produções estrangeiras em escala ou realismo. Cada um apostou numa ideia clara, seja uma mecânica, uma homenagem ou um cenário, e construiu o restante do projeto em torno dela.
Também é importante notar que essas apostas foram executadas com qualidade. A identidade sozinha não sustenta um jogo, mas sim a combinação entre uma proposta distinta e uma execução cuidadosa que transforma uma boa ideia num título lembrado. Testes com jogadores, polimento e atenção aos detalhes continuaram sendo indispensáveis nos três casos.
Identidade é vantagem competitiva
Para estúdios brasileiros, especialmente os pequenos, a principal lição desses casos é que não é preciso esconder a própria origem para competir no mercado global. Pelo contrário: o olhar local pode ser exatamente o que diferencia um jogo numa vitrine com milhares de lançamentos.
O desafio, para Murilo Moura Alencar, está justamente em transformar essa identidade em design, e não apenas em decoração. Quando a cultura, a história ou a memória afetiva moldam a forma de jogar, o resultado tende a ser algo que só aquele estúdio poderia ter feito.

